5 de maio de 2011 às 22h25min
Por Lorenna Rodrigues (após a matéria, leia o Comentário do Blog)
O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, afirmou nesta quinta-feira que os brasileiros devem moderar o consumo neste momento.
“Se quiser adiar o consumo, moderar o consumo para consumir mais para a frente, esse é o momento de fazê-lo”, afirmou, durante audiência que reuniu três comissões da Câmara dos Deputados e duas do Senado.
Segundo Tombini, os consumidores devem aproveitar a situação de alta nos juros para poupar.
“No ciclo de aperto em que nós estamos, você cria um incentivo para o poupador que vai ser melhor remunerado nas suas aplicações financeiras.”
Ele também disse que as estratégias do BC para controlar a inflação não mudaram.
Na ata da última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), divulgada na semana passada, o BC deu mais destaque para o uso dos juros como instrumento para segurar a alta de preços, o que foi visto pelo mercado como uma mudança de direção pela instituição, que vinha apoiando suas ações em medidas macroprudenciais, como a restrição ao crédito.
“Não há mudança alguma. Simplesmente na comunicação estamos tratando de dar o destaque necessário para o instrumento convencional. Medidas macroprudenciais serão levadas em conta no processo de aperto das condições monetárias que está em curso para trazer a inflação para o centro da meta”, afirmou.
O presidente disse ainda que “há muita falação” que não vem do BC, mas que a linha adotada pela instituição tem sido consistente.
Tombini disse ainda que a inflação deverá “rodar no centro da meta” a partir dos próximos meses, o que significa uma inflação mensal de até 0,4%. No acumulado dos 12 meses, porém, a inflação ainda ficará acima dos 4,5% por conta do comportamento dos preços no início do ano. Para 2012, Tombini prevê a inflação no centro da meta, ou seja, em 4,5%.
“Uma política monetária opera com defasagem. Tudo o que foi feito nesses três meses não tem condição de atingir a inflação corrente, vai atingir ao longo do tempo”, concluiu.
Comentário do blog: Em primeiro lugar, Tombini diz o que todo brasileiro decente, sem precisar ser economista, sabe: há sim inflação. O que desmente Lula, aquele que dizia que bom ex-presidente é aquele que fica calado. Como ele é um tagarela, diz que é um péssimo ex-presidente. Irresponsavelmente, Lula diz que não há inflação e quem diz o contrário é profeta do caos.
Quando sindicalista pobre, mas “apoiado” pelo compadre-advogado, Lula se vestia muito mal. Virou presidente e ex-presidente folgado economicamente e piorou: passou a se vestir de maneira esdrúxula – só anda de terno e bravata.
O que espanta nas declarações de Tombini, é que ele joga a sujeira para debaixo do tapete. Quero dizer: ele acredita – de maneira conservadora, isso para dizer o menos – numa receita pra lá de questionável: há inflação? Aumentem-se os juros. É como se dissesse: o paciente tem problemas de estômago? Então aplique-se o remédio mais severo. Mas a alimentação prossegue a mesma.
O Banco Central e a tal equipe econômica do governo não levam em conta o perigoso crédito fácil. O crédito imoderado gerou grave crise nos Estados Unidos e acabou por abalar a economia mundial, só para lembrar.
Pelas palavras de Tombini, fica-se com a impressão de que ele e o governo acreditam que turbulências inflacionárias surgem e desaparecem por efeito automático. Tanto que o máximo que o BC consegue fazer é aumentar os juros e lançar conselhos inócuos como “por favor, não gastem”.
Só que os juros altos – a receita conservadora do governo – levam a um preço salgado: enquanto a inflação não é debelada, sofrem os mais pobres; os bancos seguem multiplicando por 1.000 os seus lucros e a dívida pública vai parar no espaço.
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2 de maio de 2011 às 12h57min
A matéria abaixo, publicada pela revista ISTOÉ, teve repercussão no sábado, 30/04, no SBT Brasil. A matéria mostra uma das pontas do submundo do PT.
Depois da matéria, leia o Comentário do Blog mais abaixo.
O fugitivo, o ministro e a PF
Em menos de um mês, investigado pela PF encontra-se com o ministro da saúde, tem a prisão decretada, esconde-se da polícia na sede do PT em Brasília e consegue um habeas corpus para continuar livre
Por Claudio Dantas Sequeira

O amigo do vice-governador do MA
No início de fevereiro, a Polícia Federal deflagrou uma operação que desbaratou um esquema de fraudes e lavagem de dinheiro na Prefeitura de Barra do Corda, no Maranhão. Como ISTOÉ revelou, a quadrilha, formada por membros da família do prefeito Manoel Mariano de Souza, o Nenzim, desviou R$ 50 milhões dos cofres públicos, boa parte dinheiro do Fundeb que deveria ser aplicado nas escolas. Agora, a PF está concluindo um novo inquérito sobre desvios milionários nas contas do Incra maranhense. As duas investigações, embora independentes, têm em comum um mesmo personagem: o lobista João Batista Magalhães, comerciante maranhense, conhecido de políticos e empresários, que nos últimos anos acumulou prestígio e riqueza, tornando-se figura carimbada nos gabinetes de Brasília. No início deste ano, Magalhães chegou a ser recebido pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em seu gabinete, na Esplanada dos Ministérios.
Apesar de não ser a figura central na nova série de escândalos maranhenses, João Batista Magalhães ocupa papel de destaque em cada um deles. Para a Polícia Federal, o lobista é peça importante para entender e desbaratar os esquemas de corrupção perpetrados por prefeitos do Estado. Por isso, ainda em fevereiro, pediu a prisão preventiva de Magalhães, que, mesmo diante de tantas denúncias, continuava na ponte aérea entre São Luís e Brasília. Foi na capital, aliás, que Magalhães se refugiou ao saber da ordem de prisão. Ao descobrir que poderia ser detido a qualquer momento, fez uso de sua rede de contatos no mundo político e conseguiu “asilo” na sede nacional do Partido dos Trabalhadores. Magalhães disparou telefonemas dali mesmo para advogados e amigos, um deles informante da PF. “Vimos no bina do telefone aquela sequência de três números 13. Quando pesquisamos, descobrimos que se tratava de uma linha do PT”, revela o delegado responsável pelo inquérito, Victor Mesquita.
A operação havia sido deflagrada no dia 3 de fevereiro, uma quinta-feira. O lobista, que estava hospedado no Hotel Kubitschek Plaza, deixou o local na manhã da sexta-feira. As pistas com base nos telefonemas voltaram a esquentar no sábado, mas a sede do PT não abre nos fins de semana. Como não tinham mandado judicial, os federais tentaram lançar mão de um ofício chamado “consentimento de busca”, pelo qual o responsável pela sede do PT autorizaria a entrada dos agentes. Quando parecia que finalmente conseguiriam prender Magalhães, uma ligação da sede da Polícia Federal em Brasília suspendeu a ação. “Mandaram abortar a missão”, afirma uma fonte ligada à investigação. O chefe da Divisão de Combate a Crimes Financeiros da PF, delegado Marcelo Oliveira, que comandou a busca, nega a versão. “O fato é que não conseguimos encontrá-lo em Brasília. A última informação foi que ele estava no Kubitschek Plaza”, afirma Oliveira.

Padilha recebeu Magalhães
Na segunda-feira 7, Magalhães foi beneficiado por habeas corpus concedido pelo Superior Tribunal de Justiça. O mesmo ato suspendeu a prisão preventiva do prefeito de Barra do Corda, Manoel Mariano de Souza, e de sua mulher, Francisca Teles, que também estavam foragidos. O secretário nacional de Comunicação do PT, deputado federal André Vargas (PR), diz desconhecer o episódio e também o lobista. “Nunca ouvi falar desse sujeito. Mas posso garantir que o diretório não serve de abrigo para ninguém, nem para criminosos nem para inocentes”, disse à ISTOÉ. O inquérito sigiloso, obtido por ISTOÉ, indica que Magalhães movimentou em sua conta e na de sua empresa quase R$ 10 milhões, entre 2007 e 2010. “Aproximadamente 50% destes depósitos são oriundos de cheques da Prefeitura de Barra do Corda”, diz a PF.
Há duas semanas, Magalhães esteve na PF para depor sobre a participação no esquema de fraudes. Porém não deu detalhes de seu périplo em Brasília. Os agentes agora se perguntam se ele passou a noite da sexta-feira 4 de fevereiro para o sábado 5 no diretório do PT ou se alguém lhe entregou as chaves do local pela manhã. As suspeitas dos federais recaem sobre o vice-governador do Maranhão, Washington Luiz de Oliveira (PT), a quem o lobista era extremamente ligado. Não foram poucas as vezes em que os dois foram vistos juntos em Brasília e no Maranhão. Em São Luiz, o vice-governador andava em carros do próprio Magalhães, que também emprestou seu Land Rover para caciques petistas que estiveram naquela cidade na campanha de 2010.
A relação entre o lobista e o vice-governador tornou-se mais forte na época em que Washington Oliveira era assessor especial da Secretaria-Geral da Presidência da República, na gestão do ministro Luiz Dulci. “Ele levava os prefeitos para Brasília prometendo a liberação de verbas. Já fazia isso havia uns cinco anos, mas nos últimos dois anos ele ficou fortíssimo”, afirma um assessor parlamentar. Oliveira admite que conhece Magalhães, mas nega qualquer envolvimento com as atividades de lobby. Contra a versão do vice há informações de que, dois dias antes da operação da PF, ele apresentou Magalhães ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha, de quem era colega no governo Lula. Segundo fontes ligadas à investigação, depois de abocanhar verbas da educação e da reforma agrária, o lobista mirava na atual pasta de Padilha, a Saúde. Questionado pela reportagem, o ministro disse não conhecer o lobista, mas confirmou que ele fez parte de um grupo de cinco pessoas que lhe foram apresentadas pelo vice-governador maranhense no dia 1o de fevereiro, dois dias antes da decretação da prisão. Magalhães virou uma espécie de fantasma nas hostes petistas. E as investigações sobre seus negócios ainda vão assombrar muita gente.
Comentário do Blog: João Batista Magalhães não é figura desconhecida nos meios jornalísticos do Maranhão. Durante a campanha de 2010, por exemplo, não havia quem não soubesse que o agora vice-governador do Maranhão Washington Luiz (PT) andava numa caminhonete de propriedade de Magalhães.
O Blog do jornalista Luís Cardoso chegou a mostrar as íntimas relações entre Magalhães e Washington Luiz. Foi, se a memória não me trai, o único a publicar na época que o vice-governador havia levado o lobista a uma visita com o ministro da Saúde, Padilha, como conta a ISTOÉ.
Washington Luiz não nega a parceiria, mas se defende com o argumento de que não pode pedir atestado de bons antecedentes a pessoas com quem anda. Errado. Quanto mais importância pública tem um homem, mais deve procurar saber com quem anda.
Mas é difícil acreditar que o vice-governador do Maranhão não soubesse das atividades de Magalhães. Do contrário, por que introduziria o lobista no gabinete de um ministro?
A matéria de ISTOÉ levanta algo ainda mais cabeludo: procurado pela PF, Magalhães teria se escondido na sede do PT em Brasília. Algo difícil de pôr em dúvida sabendo-se das traquinagens do PT nacional. Delúbio Soares, a caixa-preta do Mensalão, acabou de voltar para o partido por decisão folgada, com apoio de Lula e de Zé Dirceu e defesa de Marta Ex-Suplicy.
Ainda tem mais. A PF nega – nem poderia ser diferente –, mas a revista diz que a Polícia Federal não entrou na sede do PT em Brasília por conta de um telefonema superior, que mandava abortar a operação. Nem preciso dizer da força de quem se encontra no Poder Federal para mandar abortar operações.
Só para concluir: Magalhães em tempo recorde faturou milhões de reais em esquemas na Prefeitura de Barra do Corda e no Incra-MA. Foi impedido de faturar ainda mais alto no Ministério da Saúde. Com o auxílio luxuoso do PT.
Último detalhe, nem por isso menos importante: O STJ deu habeas corpus para o prefeito de Barra do Corda e para Magalhães. Ah, a generosidade do STJ…
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2 de maio de 2011 às 10h25min
Um novo Brasil
Fernando Henrique Cardoso – O Estado de S.Paulo
Décadas atrás havia uma discussão sobre a “modernização” do Brasil. Correntes mais dogmáticas da esquerda denunciavam os modernizadores como gente que acreditava ser possível transformar o País saltando a revolução socialista. Com o passar do tempo, quase todos se esqueceram das velhas polêmicas e passaram a se orgulhar das grandes transformações ocorridas. Até mesmo pertencermos aos Brics, uma marca criada em 1999 pelo banco Goldman Sachs, passou a ser motivo de orgulho dos dirigentes petistas: finalmente somos uma economia emergente!
Na verdade, o Brasil é mais do que uma “economia emergente”, é uma “sociedade emergente” ou, para usar o título de um livro que analisa bem o que aconteceu nas últimas décadas, somos um novo país (ver Albert Fishlow, O Novo Brasil, Saint Paul Editora, 2011). Para entender as dificuldades políticas que foram transpostas para acelerar estas transformações basta ler a primeira parte de um livrinho que tem o instigante título Memórias de um Soldado de Milícias, escrito por Luiz Alfredo Raposo e publicado este ano em São Luís do Maranhão.
Embora os livros comecem a registrar o que é este novo Brasil – e há outros, além do que mencionei -, o senso comum, especialmente entre os militantes ou representantes dos partidos políticos e seus ideólogos, ainda não se deu conta por completo dessas transformações e de suas consequências.
Os fundamentos deste novo País começaram a se constituir a partir das greves operárias do fim da década de 1970 e da campanha das Diretas-Já, que conduziram à Constituição de 1988. Este foi o marco inicial do novo Brasil: direitos assegurados, desenho de um Estado visando a aumentar o bem-estar do povo, sociedade civil mais organizada e demandante, enfim, liberdade e comprometimento social. Havia na Constituição, é certo, entraves que prendiam o desenvolvimento econômico a monopólios e ingerências estatais. Sucessivas emendas constitucionais foram aliviando essas amarras, sem enfraquecer a ação estatal, mas abrindo espaço à competição, à regulação e à diversificação do mundo empresarial.
O segundo grande passo para a modernização do País foi dado pela abertura da economia. Contrariando a percepção acanhada de que a “globalização” mataria nossa indústria e espoliaria nossas riquezas, houve a redução de tarifas e diminuição dos entraves ao fluxo de capitais. Novamente os “dogmáticos” (lamento dizer, PT e presidente Lula à frente) previram a catástrofe que não ocorreu: “sucateamento” da indústria, desnacionalização da economia, desemprego em massa, e assim por diante. Passamos pelo teste: o BNDES atuou corretamente para apoiar a modernização de setores-chave da economia, as privatizações não deram ensejo a monopólios privados e mantiveram boa parte do sistema produtivo sob controle nacional, seja pelo setor privado, seja pelo Estado, ou em conjunto. Houve expansão da oferta e democratização do acesso a serviços públicos.
O terceiro passo foi o Plano Real e a vitória sobre a inflação, não sem enormes dificuldades e incompreensões políticas. Juntamente com a reorganização das finanças públicas, com o saneamento do sistema financeiro e com a adoção de regras para o uso do dinheiro público e o manejo da política econômica, a estabilização permitiu o desenvolvimento de um mercado de capitais dinâmico, bem regulado, e a criação das bases para a expansão do crédito.
Por fim, mas em nada menos importante, deu-se consequente prática às demandas sociais refletidas na Constituição. Foram ativadas as políticas sociais universais (educação, saúde e Previdência) e as focalizadas: a reforma agrária e os mecanismos de transferência direta de renda, entre eles as bolsas, a primeira das quais foi a Bolsa-Escola, substituída pela Bolsa-Família. Ao mesmo tempo, desde 1993 houve significativo aumento real do salário mínimo (de 44% no governo do PSDB e de 48% no de Lula).
Os resultados veem-se agora: aumento de consumo das camadas populares, enriquecimento generalizado, multiplicação de empresas e das oportunidades de investimento, tanto em áreas tradicionais quanto em áreas novas. Inegavelmente, recebemos também um impulso “de fora”, com o boom da economia internacional de 2004-2008 e, sobretudo, com a entrada vigorosa da China no mercado de commodities.
Por trás desse novo Brasil está o “espírito de empresa”. A aceitação do risco, da competitividade, do mérito, da avaliação de resultados. O esforço individual e coletivo, a convicção de que sem estudo não se avança e de que é preciso ter regras que regulem a economia e a vida em sociedade. O respeito à lei, aos contratos, às liberdades individuais e coletivas fazem parte deste novo Brasil. O “espírito de empresa” não se resume ao mercado ou à empresa privada. Ele abrange vários setores da vida e da sociedade. Uma empresa estatal, quando o possui, deixa de ser uma “repartição pública”, na qual o burocratismo e os privilégios políticos, com clientelismo e corrupção, freiam seu crescimento. Uma ONG pode possuir esse mesmo espírito, assim como os partidos deveriam possuí-lo. E não se creia que ele dispense o sentimento de coesão social, de solidariedade: o mundo moderno não aceita o “cada um por si e Deus por ninguém”. O mesmo espírito deve reger os programas e ações sociais do governo na busca da melhoria da condição de vida dos cidadãos.
Foi para isso que apontei em meu artigo na revista Interesse Nacional, que tanto debate suscitou, às vezes a partir de leituras equivocadas e mesmo de má-fé. É inegável que há espaço para as oposições firmarem o pé neste novo Brasil. Ele está entre os setores populares e médios que escapam do clientelismo estatal, que têm independência para criticar o que há de velho nas bases políticas do governo e em muito de suas práticas, como a ingerência política na escolha dos “campeões da globalização”, o privilegiamento de setores econômicos “amigos”, a resistência à cooperação com o setor privado nos investimentos de infraestrutura, além da eventual tibieza no controle da inflação, que pode cortar as aspirações de consumo das classes emergentes. Para ocupar esse espaço, entretanto, é preciso que também as oposições se invistam do espírito novo e sejam capazes de representar este novo Brasil, tão distante do pequeno e às vezes mesquinho dia a dia da política congressual.
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1 de maio de 2011 às 11h40min
*Obras atacam privatizações feitas pelo tucano e minimizam o mensalão
*Comissão formada por professores avalia os livros, que são usados por 97% das escolas da rede pública de ensino
Por Luiza Bandeira e Rodrigo Vizeu
Livros didáticos aprovados pelo MEC (Ministério da Educação) para alunos do ensino fundamental trazem críticas ao governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e elogios à gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Uma das exigências do MEC para aprovar os livros é que não haja doutrinação política nas obras utilizadas.
O livro “História e Vida Integrada”, por exemplo, enumera problemas do governo FHC (1995-2002), como crise cambial e apagão, e traz críticas às privatizações.
Já o item “Tudo pela reeleição” cita denúncias de compra de votos no Congresso para a aprovação da emenda que permitiu a recondução do tucano à Presidência.
O fim da gestão FHC aparece no tópico “Um projeto não concluído”, que lista dados negativos do governo tucano. Por fim, diz que “um aspecto pode ser levantado como positivo”, citando melhorias na educação e a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Já em relação ao governo Lula (2003-2010), o livro cita a “festa popular” da posse e diz que o petista “inovou Desenvolvimento Socialno estilo de governar” ao criar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.
O escândalo do mensalão é citado ao lado de uma série de dados positivos.
Ao explicar a eleição de FHC, o livro “História em Documentos” afirma que foi resultado do sucesso do Plano Real e acrescenta: “Mas decorreu também da aliança do presidente com políticos conservadores das elites”. Um quadro explica o papel dos aliados do tucano na sustentação da ditadura militar.
Quando o assunto é o governo Lula, a autora -que à Folha disse ter sido imparcial- inicia com a luta do PT contra a ditadura e apenas cita que o partido fez “concessões” ao fazer “alianças com partidos adversários”.
Em dois livros aprovados pelo MEC, só há espaço para as críticas à política de privatizações promovida por FHC, sem contrabalançar com os argumentos do governo.
MENSALÃO
Já na apresentação da gestão Lula, há dois livros que não citam o mensalão.
Em “História”, uma frase resume o caso, sem nomeá-lo: “Em 2005, há que se destacar, por outro lado, a onda de denúncias de corrupção que atingiu altos dirigentes do PT, inúmeros parlamentares da base do governo no Congresso e alguns ministros do governo federal”.
A Folha não conseguiu falar com os autores da obra.
Uma das críticas feitas a Lula é o fato de ter continuado a política econômica do antecessor.
Os livros aprovados pelo MEC no Programa Nacional do Livro Didático são inscritos pelas editoras e avaliados por uma comissão de professores. Hoje, 97% da rede pública usa livros do programa.
São analisados critérios como correção das informações e qualidade pedagógica. As obras aprovadas são resenhadas e reunidas em um guia, que é enviado às escolas públicas para escolha dos professores.
OUTRO LADO
Ministério da Educação diz que adota critérios técnicos para aprovar obras
DE SÃO PAULO
O Ministério da Educação não comentou o tratamento dado a FHC e Lula nos livros.
Em nota, listou os critérios técnicos que usa para aprovar os livros, como o que veta obras que “fizerem doutrinação religiosa ou política”.
A autora Joelza Ester Rodrigues, do livro “História em Documento”, da editora FTD, afirmou que seu livro é imparcial.
Ela disse que detalhou as alianças com “conservadores” só no caso de FHC porque o contexto do livro deixa pressuposto que os “partidos adversários” aos quais o PT se aliou também eram conservadores.
A Abril Educação, que controla as editoras Ática e Scipione, afirmou, por meio da assessoria de imprensa, que tem uma “política voltada à pluralidade de seus autores e à independência e excelência editoriais”.
O professor Claudino Piletti, coautor do livro “História e Vida Integrada”, da editora Ática, concorda que sua obra é mais favorável ao governo Lula. “Não tem o que contestar”, afirmou.
Ele disse que é responsável pela parte de história geral da obra e que a história do Brasil ficou a cargo de seu irmão, Nelson Piletti, que está na Itália e não foi encontrado pela reportagem.
À Folha Claudino disse que critica o irmão pela tendência pró-Lula e vai tentar convencê-lo a mudar a obra.
“Não dá para ser objetivo. O professor de história tem suas preferências, coloca sua maneira de pensar. Realmente ele [Nelson] tem esse aspecto, tradicionalmente foi ligado à esquerda e ao PT”, afirmou Claudino.
A reportagem não conseguiu encontrar até o encerramento desta edição autores de três obras das duas editoras: “História”, “Projeto Radix – História” e “História em Projetos”. A assessoria da Abril Educação não forneceu os contatos deles.
Comentário do blog: As matérias acima nem precisam de comentários, já dizem tudo. Mas vamos lá. Só há uma expressão para tudo isso: lavagem cerebral. Nos regimes totalitários assim funcionava o “ensino” de história. Na finada União Soviética, os donos do poder chegaram ao requinte de apagar das fotos oficiais o companheiro caído em desgraça.
Espanta o Ministério da Educação falar em critérios técnicos. É o cinismo posto a serviço da deseducação. Uma das autoras diz ter sido imparcial. Ou é ignorante ou está de gozação. Quem sabe as duas coisas de uma só vez. Do outro autor, o irmão diz que “tradicionalmente foi ligado à esquerda e ao PT”. Não espanta que o escândalo do Mensalão apareça num quadro de coisas elogiáveis.
Não espanta – pelo menos a mim – a Editora Abril estar na jogada. É a editora morcego, chupa e abana. Nos seus meios de comunicação a editora critica o lulo-petismo, na área de livros didáticos produz sapiências como essas, carregadas de mentiras contra o governo anterior ao do PT (FHC é um reacionário que no governo se aliou a conservadores e, por antítese, Lula só anda com gente boa). Mas deve-se compreender, afinal até certos críticos precisam ganhar algum, sem se importar com a origem da bufunfa.
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27 de abril de 2011 às 12h48min
A partir do Plano Real, o Brasil pôde ter uma política econômica capaz de nos colocar no desenvolvimento desejado. Concomitantemente, tratou-se de modernizar o Estado.
Mas, desgraçadamente, a política seguiu na caverna da barbárie. A política nos faz terceiromundistas.
O PSDB, que deu a guinada econômica e modernizadora, não mudou um milímetro a política. Hoje o partido reclama das relações promíscuas entre o governo petista e Sarney. Mas na era do tucanato não foi diferente. Renan Calheiros – o mesmo rei do gado de ouro de hoje – chegou a ministro da Justiça. Prova de que os tucanos não tinham lá muita consideração pelo galinheiro (ou curral, como queiram).
Do PT nunca se esperou coisa melhor. Quem foi contra a eleição de Tancredo Neves, contra o Plano Real (coisa de neoliberal!), contra a Lei de Responsabilidade Fiscal e tachou o Bolsa Escola (embrião do Bolsa Família) de Bolsa Esmola não poderia ter uma visão política distante do que se viu nos oito anos do doutor Lula.
Ao contrário, o PT tratou de avacalhar geral. Collor está pronto a apoiar o governo? Que venha como amigo de infância. Maluf segue à mão, que venha o honestíssimo Maluf.
A desgraça maior é não ter no horizonte nada que acene com a possibilidade de nos tirar do atoleiro político.
A turma que agora se apodera do Conselho de Ética do Senado só nos confirma:
- Aceitamos as mudanças econômicas para que a política siga como pocilga.
19 de abril de 2011 às 14h52min
O Partido Popular Socialista (PPS) precisa fazer profundas reflexões na busca de um escopo.
Trata-se de um partido relativamente novo, de proposta democrática e com pedigree: nasceu de uma costela do PCB.
A chegada do PT ao poder não trouxe insegurança à democracia por ser o PT um partido de esquerda. Longe disso. O PT sequer é um partido de esquerda anacrônico, preso a dogmas já devidamente soterrados. É um partido de viés autoritário, cuja vontade de se perpetuar no poder desconsidera a estabilidade das instituições. E dá solene banana à ética.
É um partido perigoso porque usurpou o discurso da esquerda para fins eleitoreiros e de permanência no poder. Não foi à toa que, nos dois mandatos de Lula da Silva, sempre que surgiam denúncias de ilícitos trataram de puxar da cartola a resposta mágica: tratava-se de coisa da direita. Se denúncia fosse coisa de direita, a esquerda até hoje não existiria.
Até aqui DEM e PSDB têm se mostrado partidos particularmente suscetíveis a essa retórica. Desgraçadamente, no Brasil ninguém quer ser de direita, coisa comparada a uma peste. Se alguém perguntar a Paulo Maluf e a Collor de Melo se são de direita, imediatamente dirão ser mais marxistas que Marx. Sobretudo hoje, quando o discurso de ambos encontra respaldo na reabilitação promovida pelo PT.
Mas o PT prevalece porque a oposição exonerou-se de sua função.
Como dizer que a oposição é de direita e abraçar José Sarney, por exemplo? Lula chegou a recriminar quem criticava José Sarney (por conta de denúncias concretas e grotescas) com o argumento de que este é um cidadão incomum. Há algo mais elitista do que considerar determinados cidadãos acima do bem e do mal? Ou mesmo acima da lei a que todos os outros estão sujeitos?
Neste instante o DEM e o PSDB silenciam diante de uma aberração: aceitam que filiados – e com mandato! – assinem documento de criação do PSD, um partido que esconde a mão, mas que todos sabem da pedra que está a jogar nas oposições. Mas não só, o PSD poderia até vir com postura de oposição, ainda assim DEM e PSDB deveriam reagir à impostura de seus filiados.
O PPS pode e deve ocupar esse vácuo político. Não deve, sob qualquer perspectiva, contentar-se com o papel de coadjuvante.
O papel oposicionista que lhe cabe é o de ruptura. Na última eleição para presidente da República o PSDB optou pela continuidade, a ponto de no programa eleitoral de José Serra aparecer – coisa típica de um país que emerge economicamente, mas afunda na periferia política – a figura do adversário-mor, Lula.
Sabe-se, o PPS não tinha, naquelas circunstâncias, outra opção. Mas agora pode criá-la. Não custa lembrar o poeta: é caminhando que se faz o caminho.
Nesse sentido, 2012 surge como uma luva. Faz-se necessário o lançamento do maior número de candidaturas próprias na disputa pelas prefeituras. Assim como o maior número possível de candidatos a vereador. Não aleatoriamente, mas dentro de um projeto.
Isso com um discurso de protagonista, de quem compreende o momento político e deseja mudá-lo. O PPS não tem motivo algum para se tornar refém do discurso da falsa esquerda. O nascimento do partido já é em si a prova dessa força: contra todo o tipo de patrulhamento soube quebrar os elos com o equívoco e o autoritarismo de esquerda e pregar mudanças sociais no campo democrático. Não é pouco.
Embora, em termos de mandato, mais por culpa da postura vacilante dos aliados que de questões internas, tenha emagrecido, tem um vasto campo para sobressair-se. Com olhos bem abertos: a luta no parlamento é importante, mas insuficiente. Maiakovski dizia, com palavras diferentes, mas enviadas a resultados idênticos, que o poeta precisa apropriar-se de todos os meios hodiernos para se tornar visível e atingir os fins necessários. Na política não é diferente.
O PPS tem hoje um vasto campo de ação. A estratégia dirá se merece ocupar esse espaço.
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18 de abril de 2011 às 13h17min
Calúnia ou prevaricação?
POLICARPO JUNIOR
REVISTA VEJA
Ministro do STJ confirma que renunciou a candidatura ao Supremo depois de ser acusado levianamente pelo ex-presidente Lula e pelo advogado Roberto Teixeira de cobrar propina
A indicação dos ministros que compõem o Supremo Tribunal Federal (STF) é uma atribuição exclusiva do presidente da República. Em fevereiro de 2010 o ministro Cesar Asfor Rocha, então presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), foi convidado por Lula para uma audiência que durou cerca de trinta minutos. Falaram sobre os problemas da Justiça, trocaram elogios e, por fim, o presidente comunicou ao magistrado que o havia escolhido para ocupar uma vaga que seria aberta no STF. Combinaram que o assunto deveria ser mantido em segredo até o anúncio oficial – e despediram-se com um abraço. Em novembro, em um encontro na casa do presidente do Congresso, José Sarney, o ministro Cesar Asfor comunicou ao senador que não tinha mais interesse na indicação para o cargo e pediu a ele que informasse ao presidente Lula que se sentia atingido em sua “dignidade pessoal”. Asfor Rocha nunca mais falou sobre o assunto. Em março passado, a vaga no STF foi ocupada por Luiz Fux, seu colega de tribunal.
O que aconteceu nos nove meses que separaram o convite de Lula e a desistência de Cesar Asfor é um enigma que dominou com especulações o meio jurídico e político de Brasília. A repentina recusa do magistrado contrastava com seu público e notório entusiasmo diante da possibilidade de se transferir para a mais alta corte de justiça.do Brasil. Governadores, advogados, políticos e empresários promoviam romarias ao gabinete do “futuro ministro do Supremo” para cumprimentá-lo antecipadamente pela indicação dada, então como certa. A saída de Asfor da disputa pela vaga no STF pareceu inexplicável a muita gente. Quando se revelou que Asfor havia justificado sua desistência alegando a preservação da sua “dignidade pessoal”, a especulação foi às alturas.
VEJA levantou os reais motivos responsáveis pela súbita e inesperada mudança de ideia do magistrado, Cesar Asfor teve seu nome envolvido em uma acusação ruinosa para qualquer magistrado: a de receber propina. Não bastasse isso, potencializou os efeitos desastrosos da acusação o fato de ela ter partido de ninguém menos que o próprio presidente da República. Mas não foi o mesmo Lula que fez o convite a Asfor nove meses antes? E o fez a seu modo com uma profusão de elogios e um abraço carinhoso no final da conversa. O que fez Lula retirar a indicação de Cesar Asfor? VEJA ouviu de interlocutores diretos de Lula relatos esclarecedores sobre o episódio. A essas pessoas Lula confidenciou que havia desistido de indicar o ministro depois de ter sido informado de que ele tena pedido dinheiro para decidir no STJ em favor de um recurso de interesse de determinada empresa. Chegou aos ouvidos de Lula que mesmo tendo recebido a propina combinada, Cesar Asfor rompeu o acordo e julgou o processo em desfavor dos interesses dos corruptores Lula disse a seus interlocutores que se convencera da veracidade da denuncia contra seu, até então, candidato in pectore a uma vaga no STF. Por que razão o presidente aceitou como verdadeira a grave denúncia contra Asfor? A explicação dada por Lula foi que sua forte era um amigo que merecia sua total confiança, conforme relata um dos interlocutores: “Em uma recepção no Palácio da Alvorada, em outubro, perguntei ao presidente quando ele anunciaria a escolha de Cesar Asfor para o Supremo. “Não vai dar”, respondeu o presidente, “um amigo meu disse que ele pediu uma mala de dinheiro para decidir um caso”. Espantado diante da revelação, o interlocutor teve outra surpresa quando Lula revelou que o amigo da história era Roberto Teixeira, seu advogado e compadre.
Com um ou outro detalhe discrepante, Lula contou a mesma história a um ministro, a um seu ex-ministro, a um governador e a um advogado de intensa militância nas altas cortes capital federal. Ela pode ser resumida assim: Roberto Teixeira teria procurado Cesar Asfor na condição de advogado de uma empresa de fertilizantes para conversar a respeito de um processo que tramitava no Superior Tribunal de Justiça. Depois de ouvir os argumentos do.advogado, o ministro teria pedido 500 000 reais de propina para julgar causa a favor da empresa, Indignado com a quebra do compromisso, Roberto Teixeira teria reclamado com o presidente, que decidiu suspender a indicação do ministro. Cesar Asfor soube dessa versão em outubro do ano passado e no mês seguinte pedia a Sarney que levasse a Lula a mensagem cifrada em que citava sua “dignidade pessoal”. Antes de falar com Sarney, Asfor cuidou de rastrear a origem da história e constatou que ela realmente tivera origem no gabinete presidencial. Sempre bem informado sobre os bastidores do poder, o senador José Sarney confirmou ao amigo Asfor, com a polidez de sempre, que realmente “havia algo de errado acontecendo”.
Procurado por VEJA na semana passada. Cesar Asfor confirmou que o suposto suborno foi, de fato, a causa de sua desistência à vaga no Supremo. “Fui vítima de leviandades por parte de pessoas que queriam inviabilizar o meu nome para o Supremo. Mas prefiro acreditar que o ex-presidente da República foi enganado por essas pessoas que usam a sordidez como linguagem” disse o ministro. Asfor contou a amigos que tomou conhecimento da história pela primeira vez através de um colega da própria magistratura. “Ele me disse que soubera de amigos do Palácio do Planalto que o presidente estava falando coisas absurdas, a meu respeito. Mas não quero mais falar sobre isso. E coisa que pertence ao passado.”
O advogado Roberto Teixeira, personagem central de todas as versões da mesma trama, esteve com o ministro César Asfor no dia 3 de agosto do ano passado, em audiência oficial no gabinete da presidência do STJ. Mesmo sem procuração da empresa, apresentou-se como defensor da Fertilizantes Heringer S/A e explicou que estava apresentando um recurso ao tribunal para tentar suspender o julgamento anterior, que impedia uma unidade da empresa de operar. A fábrica, localizada em Paranaguá, no estado do Paraná, teve sua produção interrompida por provocar danos ao meio ambiente com a eliminação de resíduos tóxicos na atmosfera. A audiência concedida por Asfor a. Teixeira durou cerca de quirge minutos. Um mês depois, o recurso de interesse da Heringer, relatado por Asfor, foi negado por todos os onze ministros da corte especial do STJ. A Heringer informou que Teixeira não foi contratado como advogado e esclareceu que ele atuou na condição de consultor. Consultor de quê? A empresa não respondeu. Teixeira também não quis entrar em detalhes. Por escrito, informou apenas: “Nossa atuação corno advogados está submetida exclusivamente à Ordem dos Advogados do Brasil, não cabendo à revista VEJA ou a qualquer outra entidade exercer o controle, avaliar ou censurar a nossa atuação profissional, inclusive através de perguntas tendenciosas, objetivando a cizânia, e que, ademais, nenhuma conexão mantém com o caso específico utilizado para a veiculação das mesmas”.
A assessoria do ex-presidente Lula informou que ele está em viagem ao exterior e não pôde ser localizado. Cesar Asfor guarda para si a convicção de que o encontro que teve com Teixeira e o julgamento desfavorável a Heringer estão na origem da história contada a Lula.e que lhe custou uma cadeira no Supremo Tribunal Federal.
COM REPORTAGEM DE GABRIEL CASTRO
Comentário do Blog: Num país que não costuma jogar suas sujeiras para debaixo do tapete, a matéria da revista Veja causaria no mínimo um estrondo. Ela envolve um compadre de largas passadas na esfera do Poder Federal, a suprema Corte e o STJ. E, não menos grave, um presidente então em pleno exercício do mandato: Lula da Silva.
A ser verdadeira – e quem confirma a veracidade é um dos implicados, Astor Rocha – o então presidente Lula ouviu uma história sobre corrupção de um magistrado, puniu o magistrado não lhe indicando para o STF e fez de conta que o compadre-advogado não confessara um crime.
Mais grave impossível.
Em qualquer versão, a história comporta crimes. Vejamos:
1) Suponhamos que a história contada a Lula pelo compadre-advogado, de que Astor teria pedido grana para facilitar a vida da empresa de fertilizantes, recebera o dinheiro e não cumprira o acordo, é verdadeira. Bom, isso não é assunto para contar a um presidente da República. Na verdade, a nenhuma autoridade se deve confessar um tal crime, a não ser que saiba que a autoridade irá considerá-lao normal.
2) A história não foi bem assim. O compadre-advogado não comprou Astor, que teria recusado a proposta. A confidência ao compadre-presidente foi a forma encontrada para se vingar. Ainda aqui haveria crime. Do que contou a história inverídica, do que escutou e a levou a sério, indiferente à confissão do crime, e do próprio juiz que abafou uma tentativa de suborno.
Resumo da ópera: há algo de podre na história.
17 de abril de 2011 às 07h52min
De FHC para Lula
Por Renata Lo Prete
“Se Lula fosse um adversário leal, saberia reconhecer que não desprezo o “povão’”, diz Fernando Henrique Cardoso em resposta às declarações de seu sucessor sobre artigo escrito pelo tucano. “Sou contra o que ele fez com o povo: cooptar movimentos sociais; enganar os mais carentes e menos informados trocando votos por benefícios de governo; transformar direitos do cidadão em moeda clientelista. Quero que o PSDB, sem esquecer nem excluir ninguém, se aproxime das pessoas que não caíram na rede do neoclientelismo petista. Desejo que Lula, que esqueceu as antiquadas posições contra as privatizações, continue usufruindo das oportunidades que as empresas multinacionais lhe oferecem, como agora em Londres.”
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Para terminar - Ainda FHC: “E desejo, principalmente, que Lula termine com a lenga-lenga contra ler muito e ter graus universitários, pois não precisa mais ter complexos. Virou ‘doutor’”.
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16 de abril de 2011 às 09h53min
Vale a leitura desta brilhante análise feita pelo ex-governador de São Paulo José Serra:
José Serra (O Estado de S.Paulo)
Ao analisar a economia mundial no imediato pós-guerra, o grande economista Raúl Prebisch cunhou a expressão centro-periferia. Apontava para uma divisão internacional do trabalho entre países produtores de matérias-primas e alimentos – a periferia – e países produtores e exportadores de manufaturas – o centro.
Tal divisão desfavorecia os países da periferia, pois a concorrência entre as exportações de produtos primários era maior, refletindo-se em preços mais desfavoráveis. Previa-se, também, que sua demanda cresceria abaixo da renda mundial. Por último, carentes de indústrias, esses países permaneceriam também carentes de bons empregos e dos frutos do progresso técnico.
Essa teoria simplificava muito a realidade, mas valeu como reparo ao teorema de que os ganhos do livre-comércio internacional seriam repartidos de forma equânime entre todas as nações. E deu certo substrato ideológico às políticas de desenvolvimento industrial.
Na “periferia”, o Brasil foi o país que levou a industrialização mais longe, embaralhando a dicotomia prebischiana. A partir dos anos 1980, porém, em razão de fatalidades da política macroeconômica e da transição mal feita para uma economia mais aberta, ingressamos numa fase de lento crescimento que já dura 30 anos.
Na última década, ganharam corpo mudanças impressionantes na economia internacional, com a ascensão da Índia e principalmente da China, países com 37% da população mundial, baixa renda por habitante, com projetos nacionais de desenvolvimento e pouco afeitos a bravatas. Um quarto do crescimento da economia mundial nesse período se deveu à China. A demanda por commodities saltou de patamar, empinando quantidades e preços, num movimento que parece contínuo: mais indústrias e mais infraestrutura exigindo matérias-primas, mais empregos e mais gente consumindo alimentos.
O centro chinês é muito peculiar. A economia é monitorada pelo Estado. O grau de discricionariedade da política econômica é altíssimo. O regime autoritário é eficiente para seus propósitos, e fortemente repressivo quando necessário. Para os de fora fica difícil explorar suas contradições internas. É um regime encarado com complacência por seus parceiros comerciais, incluindo o Brasil.
A caminhada chinesa em direção ao centro da economia mundial chegou a ser saudada como janela de independência da economia brasileira, que passaria a ser menos atrelada às economias desenvolvidas clássicas. A troco de nada, o deslumbramento do governo Lula com a China levou-o a reconhecê-la como “economia de mercado”, dando mais proteção às suas práticas desleais de comércio.
Mais independência? Ledo engano. Como disse Sérgio Amaral, a China é uma oportunidade e uma ameaça. Infelizmente, o Brasil escolheu a ameaça. A incapacidade de aproveitarmos boas condições de comércio para fortalecer a economia nacional está conduzindo o País, rapidamente, à condição de neoperiferia no concerto econômico mundial. “Neo” porque a nação está se desindustrializando, na volta à sua condição de economia primário-exportadora. A China, rumo ao centro, o Brasil, rumo à periferia. Num país continental como o nosso, isso envolve a renúncia a um futuro de suficientes e bons empregos.
As diferenças econômicas Brasil-China são marcantes. O yuan é das moedas mais desvalorizadas do mundo, o que aumenta muito a competitividade de sua economia. Nossa moeda vai exatamente no sentido contrário. Temos ainda a maior taxa real de juros do planeta e a maior carga tributária entre os países emergentes, o dobro da chinesa! A taxa de investimento da China é 2,5 vezes maior do que a brasileira: faltam poupança pública e capacidade para investir os recursos disponíveis e fazer parcerias público-privadas. Sobram tributos e falta uma taxa de câmbio decente para atrair mais investimentos privados.
As exportações chinesas estão varrendo boa parte da nossa indústria. Apenas 7% do que vendemos à China são produtos manufaturados, que representam 97% do que importamos de lá. Importações que vêm em boa medida substituir produção existente, menos competitiva por causa das políticas macroeconômicas, da fragilidade da defesa comercial e da situação calamitosa da nossa infraestrutura. Produzir no Brasil é tão caro que exportamos celulose para a China e começamos a importar o papel que ela produz. Exportamos minério de ferro, compramos aço. Cadê o famoso valor agregado?
A China também nos está deslocando de outros mercados. Dois terços das empresas exportadoras brasileiras perderam clientes para as chinesas no mercado externo, quase metade da indústria brasileira que concorre com a chinesa perdeu participação no mercado interno!
Além das vantagens apontadas, a China protege sua produção doméstica, faz escaladas tarifárias (soja), administra os investimentos estrangeiros no seu território, costuma subfaturar suas vendas ou utilizar países barriga de aluguel para reexportar seus produtos e escapar das esporádicas medidas de defesa comercial que o Brasil adota.
Outra dimensão da dependência brasileira é a rápida expansão dos investimentos diretos chineses voltados para as commodities de que a China precisa. São investimentos que obedecem à orientação do Estado chinês, que, por espantoso que possa parecer no Brasil, tem visão de longo prazo. Incorporaram até mesmo terras e riquezas naturais inexploradas, sob os olhares complacentes do extasiado governo Lula. Como os chineses são espertos, não lhes custará fazer uma concessão aqui ou ali em matéria de investimentos que envolvam maior valor agregado e alguma tecnologia nova. Mas só um pouquinho.
“Negócio da China”, antigamente expressava a possibilidade de alguma pechincha, um ganho extraordinário em cima dos chineses. Hoje, ao contrário, é negócio bom para eles. Nada contra, pois pensam no futuro e sabem defender seus interesses no presente. Nessa peleja, perdemos feio.
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14 de abril de 2011 às 12h03min
Lula não saber ler, tudo bem, mas a imprensa e o próprio PSDB…
Leiam este trecho de matéria do UOL com Lula, assinada por Fernanda Calgaro:
“Em visita a Londres nesta quinta-feira (14), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a posição de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, que afirmou que a oposição deveria esquecer o “povão”. ‘Sinceramente não sei como alguém estuda tanto e depois quer esquecer o povão. O povão é a razão de ser do Brasil. E do povão fazem parte a classe média, a classe rica, os mais pobres, porque todos são brasileiros. ’”
Havia prometido a mim mesmo não comentar mais as besteiras de Lula. O ex-presidente tem a capacidade de aliar ignorância com populismo tosco como nenhum outro que passou pela Presidência da República. Mas, vá lá, comentemos.
Lula diz não saber como alguém estuda tanto e depois quer esquecer o povão. Em primeiro lugar, ninguém estuda para lembrar-se do povão, que fique claro. Estuda-se para adquirir conhecimento, para erguer uma carreira etc.
Acontece que Fernando Henrique Cardoso não disse para esquecer o povão. Disse, entre tantas outras coisas, em artigo lúcido quanto brilhante, coisa rara no meio político brasileiro, onde o toupeirismo é a regra, está aí Lula que não me deixa mentir, que o PSDB precisava mudar de rumo.
Isto é: se o PSDB prosseguir tentando disputar o mesmo espaço já conquistado pelo PT, corre o risco de ficar falando sozinho. Daí a necessidade de esquecer a busca desse eleitorado na faixa do povão, faixa onde o PT já havia fincado a estaca. Simples assim. Daí a dizer que Fernando Henrique Cardoso não quer saber do povão vai um abismo.
Mas como esperar a compreensão de um sujeito como Lula, cujos neurônios escassos não conseguem sair da Faixa de Gaza, se dentro do PSDB o artigo promoveu leituras tortas? Justiça: José Serra, outro intelectual, soube ler o artigo.
De causar preocupação, também, a trajetória atual da imprensa brasileira. Talvez pelo constante encolhimento dos leitores, embora isso não seja justificativa, o jornalismo tratou de fazer com a política o que vem fazendo com o setor de fofocas dos chamados famosos: sensacionalismo. A polêmica furada, vazia, de que o jornal Folha de S. Paulo é o exemplo gritante.
Basta reparar no texto da jornalista Fernanda Calgaro, que assina a matéria do UOL. A jornalista, antes de Lula, nos diz que Fernando Henrique Cardoso “afirmou que a oposição deveria esquecer o “povão”. Leitura tão rasteira quanto a de Lula. Seria a falta de verba para contratar repórteres de qualidade que estaria fazendo pulularem tipos como estes nas redações?
Na verdade, Fernando Henrique Cardoso, muito argutamente, só fez ler a realidade brasileira.
A partir do Plano Real, no Governo Itamar Franco, quando o próprio Fernando Henrique Cardoso era o ministro da Fazenda, começou no Brasil a mobilidade de classes como nunca antes houvera. Mas não só isso: o Plano Real e também as condições econômicas internacionais.
Pessoas de outras classes mais baixas foram pra a classe média, a chamada Classe C. Com o Plano Real ela passou a representar 40% da população brasileira. Hoje já é 52%. Arredondando, ela se encontra na faixa que vai de 1.200 a 4.700 reais. Suas aspirações, hoje, basicamente se resumem a: 1) Educação, 2) Saúde e 3) Transporte.
Realmente, essa classe média encontra-se num vácuo político. Quero dizer: os partidos políticos não estão procurando ganhá-la. Talvez venha daí a percepção equivocada de que ela não se interessa por política. Na verdade, ela é mais pragmática, não quer saber de conversa fiada, como se diz.
Entre tantas outras coisas lúcidas de Fernando Henrique Cardoso no artigo, está a de ter capturado esse espaço na política, onde o PSDB, mas não só, também os outro partidos de oposição, precisam atuar se desejam voltar ao poder.
Bom, agora vá dizer isso a Lula, a Fernanda Calgaro e ao PSDB que usa viseira.
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